Entrevista ONG Eu sou Eu

João Luis Silva, fundador Eu sou Eu.

Entrevista com João Luis Silva – Fundador da ONG “EU SOU EU, REFLEXOS DE UMA VIDA NA PRISÃO”

João Luis Silva, 37 anos, trabalha na ONG “RIO DE PAZ” como coordenador de projetos e articulador social. Dentro da ONG ele se envolveu com temas relacionados à defesa e garantia de direitos humanos. Na vida egressa também voltou a estudar, terminou o ensino médio, e está cursando o 7º período da faculdade de Direito. Pretende se formar em Direito e atuar como advogado, ajudando vítimas, vulneráveis social e economicamente, do sistema prisional. Seu objetivo é auxiliá-los em todo o processo. Também almeja conciliar esse objetivo, sem se afastar da causa, com a necessidade de prover o sustento de sua família.

Dentro dos cinco anos que viveu no sistema prisional, João declara que o cenário do sistema é bem ruim. Relata que chegou ao sistema para cumprir pena, mas que se deparou com “crimes sendo cometidos pelo próprio Estado contra os presos”. Viveu situações que o levam a recordações tristes, e que, na sua opinião, fazem da “prisão um lugar que não serve para punir legitimamente, mas como uma forma de vingança”. Se deparou com um ambiente insalubre, quente, superlotado, e sem infraestrutura para ser um ambiente de ressocialização.

Em sua vida dentro do sistema prisional, João passou por delegacias pequenas, onde ficou detido, que abrigavam mais presos do que a capacidade. Relatou que, em uma delas, permaneceu em uma cela com cerca de 100 pessoas, sendo que a capacidade era de no máximo 30 pessoas.

“Vivíamos sem água, em um ambiente muito quente, sem ventilação. As pessoas se amarravam às grades para não cair sobre outras pessoas. Havia um rodízio de sono, pois não cabiam todos deitados”.

Posteriormente, em 2012, os detentos foram enviados para o sistema prisional administrado pela Secretaria de Estado de Administração Penitenciaria do Rio – SEAP, e relata que o problema de superlotação das celas continuou. Ficou detido por um tempo no presídio de Bangu, onde vivenciou “um calor extremo. A água chegava aos presos apenas duas vezes ao dia. A comida era sempre ruim, estragada, e que os próprios detentos faziam um controle de qualidade por meio de ‘cães e gatos’, ou seja, se os animais rejeitassem a comida significava que não deveríamos comer. Todas essas violações submetem os presos a condições sub-humanas.”

João relata que em nenhum dos regimes pelo qual passou presenciou a oferta de cursos profissionalizantes ou alguma ação voltada para a qualificação profissional do preso. Apenas presenciou trabalhos repetitivos e maçantes.

“Não havia nenhum estímulo ao desenvolvimento da capacidade desses indivíduos; faziam trabalhos braçais. Nada disso possibilitava a facilitação ao ingresso no mercado de trabalho após a saída da prisão. Era oferecido um tipo de educação dentro da prisão, mas esta era precária e não despertava o interesse dos presos. Era muito difícil aprender qualquer coisa dentro da prisão, sendo ela um ambiente que continuamente massacra os presos.”

Relata ainda que não recebeu qualquer orientação, após sair da prisão, sobre como buscar emprego. Recebeu apenas determinações sobre como se apresentar posteriormente, no Patronato, para o cumprimento regular de suas penas em liberdade. Descreve que:

“Essas instituições apenas dão continuidade à punição, e não ao reingresso dessas pessoas no mercado de trabalho. O Patronato deveria, em tese, ser um lugar de apoio, porém não é o que acontece, o egresso encontra um ambiente opressivo, e que remete a uma extensão do presídio. Existe a obrigação de assistência social, mas essa não é cumprida”.

Antes de passar pela instituição prisional, ele trabalhava com serviços de frete, para fins de transporte de mercadoria, e estava no último ano do ensino médio. “Acredito que a prisão deve continuar criando pontes para a continuação ao acesso à educação, mas não foi o que aconteceu. Houve uma ruptura da minha vida acadêmica e social. Houve um distanciamento dos meus familiares devido ao número limitado de pessoas que podem fazer visitas. Fiquei três anos sem ver meu pai e meu irmão mais novo. O sistema prisional não fortalece os vínculos familiares, e sim os rompe.”

“Acredito que deveria ser desenvolvido um projeto na prisão para ajudar os detentos a identificarem suas aptidões e habilidades, e a partir disso potencializa-las. E, assim, mostrar para a sociedade que essas pessoas possuem muito a acrescentar individual e coletivamente. Muitos detentos possuem grande potencial, o que deveria ser explorado.”

Em 2014, quando ainda estava preso, João e um grupo de amigos identificaram uma dificuldade grande de se expressar e contar o que estavam vivenciando, em suas palavras “uma crise de identidade e liberdade”, foi assim que tiveram a ideia de criarem juntos uma instituição que abordasse temas relacionados aos sujeitos que, como eles, sobreviveram à prisão. Defendem que os que viveram no universo prisional precisam ser ouvidos, e não serem apenas objetos de estudo, uma vez que vivenciaram esse cenário por anos e, por isso, merecem expressar do que se trata a cadeia pelas suas próprias perspectivas. Além disso, afirma que encontraram dificuldades na reinserção no mercado de trabalho. Sobretudo, fez críticas as iniciativas do Estado de reinserção à sociedade, alegando que cada membro seguiu sua própria trajetória nessa busca, sem contar com esse papel teoricamente facilitador do Estado. João conta que “por sorte” foi encaminhado, no final de 2014, enquanto estava no regime aberto, após passar por alguns trabalhos informais, para a ONG RIO DE PAZ, que atua com programas de empregabilidade, e dentro dessa organização reencontrou pessoas que já haviam feito trabalhos dentro de entidades do sistema prisional que ele havia estado.

“Dentro do período em que passei pelo regime aberto vivi a angústia de estar desempregado e ainda tendo que custear a saída e volta à cadeia, com passagens e alimentação. A ONG me integrou no quadro de funcionários, depositando confiança e reconhecendo minha tentativa na busca de um emprego.”

Após um reencontro com antigos amigos que viveram também a privação de liberdade no Rio de Janeiro, decidiram colocar em prática aquela ideia inicial do grupo de debater temas relacionados ao período em que passaram pelo sistema prisional e, em 2017, criaram o grupo “EU SOU EU, REFLEXOS DE UMA VIDA NA PRISÃO”. O grupo possui cinco integrantes: João – que é um dos fundadores; Barbara – estudante de Jornalismo; Cristiano – membro fundador e estudante de História; Joyce – pedagoga; e Eriveltom – bacharel em direito. Todos os seus membros cumpriram pena e passaram pelo sistema prisional. A missão do grupo é estar presente onde se debate os temas relativos à prisão, violação de direitos dos presos e de seus familiares. O grupo conta com ajuda financeira de alguns projetos, mas essa ajuda é mínima. Com a vivência na faculdade de Direito, João e o grupo, então, começaram a orientar os familiares dos presos (pessoas carentes, muitas vezes sem assistência do Estado), de forma gratuita e com o objetivo de instruí-las. Paralelamente, criaram o projeto “Cumprindo pena e exercendo o Direito”. Foram contemplados em um edital do Fundo Brasil de Direitos Humanos e puderam exercer o projeto durante um ano, auxiliando essa população carente com ferramentas jurídicas que possibilitavam o entendimento acerca dos seus direitos.

A partir do que vivenciaram no sistema prisional, o grupo contribue com sua experiência para debater sobre o tema e amparar aqueles que estão enfrentando as mesmas dificuldades. Apesar de todos os integrantes do grupo “Eu sou eu” estarem cursando universidade, a maioria estava desempregado. João atribui esse desemprego a questão do preconceito que existe com pessoas que já foram presas, e não pela escolaridade.

“Além das dificuldades dentro dos muros das prisões, existe uma dificuldade que se apresenta pelo lugar onde se reside, cor da pele, e o estigma de ex-presidiário, que traz um peso muito grande na hora de disputar uma vaga no mercado de trabalho. Isso é muito grave, pois essas pessoas precisam de condições para um sustento mínimo digno e honesto, o que acarreta a reincidência na criminalidade.”

João acredita que há uma grande preocupação do sistema em prender e punir, porém não se faz nenhum trabalho de conscientização ou aproveitamento da mão de obra do preso, com o intuito de esse indivíduo ter oportunidade de ingressar no mercado de trabalho quando sair da prisão. Ele se declara como uma exceção a isso tudo, por ter conseguido um trabalho. Se define ainda como um egresso que não representa a grande maioria das pessoas que deixam o sistema prisional, a qual não têm qualquer tipo de amparo do Estado, ONGS, familiares etc. O grupo continua trabalhando em novos projetos para alcançar e ajudar outros sobreviventes do sistema prisional e seus familiares que estão em situação de vulnerabilidade.

A ONG “EU SOU EU, REFLEXOS DE UMA VIDA NA PRISÃO” permite que pessoas os procurem, e o contato é feito através da página do Facebook e Instagram e pelo e-mail: ongeusoueu@gmail.com.

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